quarta-feira, abril 08, 2009

Estranhos

(Roteiro de média-metragem baseado no conto homônimo de Sergio Sant´anna)


FADE IN:

INT.APARTAMENTO DE BOTAFOGO - NOITE
A mão de homem vasculha as gavetas de um armário embutido. Ele abre a última gaveta, retira um maço de papéis e, ao fechá-la, um caderno de jornal amarelado e amassado cai no chão. A mão pega o jornal e vê-se um anúncio de classificados que diz "Botafogo - aluguel baratíssimo - Dois quartos, play., pisc., dep. emp. Tel.: 2546-2309". O anúncio foi marcado com um círculo feito com uma caneta preta grossa.


INT.QUITINETE DE ANTONIO - DIA
A quitinete está decorada apenas com algumas caixas empilhadas pelos cantos e um sofá-cama, em que CLARICE olha os classificados do jornal enquanto faz tranças no cabelo comprido. Ela usa uma bata rosa, uma calça jeans justa e sandálias. CLARICE marca um dos anúncios com uma estrelinha de caneta esferográfica azul. ANTONIO sai do banheiro ainda fechando os botões da camisa e fica olhando a nuca de CLARICE por alguns segundos. Quando percebe a presença dele, ela se vira.

ANTONIO
Encontrou algum?

CLARICE
Tem um em Botafogo que parece bom...

ANTONIO
(cortando)
Mas parece bom ou é bom? Porque
eu já estou cansado de torrar minhas férias vendo porcaria.

CLARICE
Bom, o que você quer que eu faça se a gente só tem dinheiro pra alugar porcaria?

ANTONIO
(cínico, imitando CLARICE)
Bom, e a culpa é minha? Se um dia eu for promovido, a gente vai morar no Leblon, tá?

CLARICE
Agora que eu me formei vai ficar mais fácil a gente arrumar um lugar pra morar, você vai ver.

O telefone toca e CLARICE atende, mas não se ouve o que diz. Pela pequena janela da quitinete, ANTONIO observa a varanda do apartamento da frente, onde uma mulher dá de mamar a um bebê e uma garotinha tenta andar de bicicleta em meio a muitos brinquedos espalhados pelo chão. CLARICE bate o telefone.

CLARICE
Ferrou. Não vai dar pra eu ir. Trocaram meu plantão. Tudo bem você ir sozinho?


INT.QUITINETE DE ANTONIO - DIA
Mesma quitinete, mesma situação da cena 2. CLARICE olha os classificados do jornal enquanto faz tranças no cabelo comprido. Ela marca um anúncio com uma estrelinha de caneta esferográfica azul. ANTONIO sai do banheiro ainda fechando os botões da camisa. CLARICE observa o corpo de ANTONIO sorrindo.

ANTONIO
Encontrou alguma coisa?

CLARICE
Tem um em Botafogo, vamos?

ANTONIO
Você acha que presta?

CLARICE dá de ombros. Antonio se aproxima dela e lhe faz um carinho na cabeça.

ANTONIO
(desanimado)
Um dia eu vou ser promovido
e a gente vai morar junto num predinho tranquilo e charmoso de Ipanema. Você vai ver.

CLARICE se levanta e dá um beijo na boca de ANTONIO. Ele pega a carteira e calça os sapatos que estão perto da porta. Os dois saem juntos, abraçados. Pouco antes de fechar a porta de seu apartamento, ANTONIO fica alguns segundos admirando a bagunça que reina ali.


EXT.PRÉDIO EM BOTAFOGO - DIA
De mãos dadas, ANTONIO e CLARICE chegam à portaria de um prédio. Na fachada lê-se o nome: Edifício Bois du Boulogne. Uma MULHER chega logo depois deles, fumando e amassando um caderno de classificados em uma das mãos. Ela é bonita, tem cabelos curtos e pretos, usa um vestido listrado e sapatos pesados de amarrar, parecidos com os de homem. O batom transborda da linha dos lábios. Ela ignora o casal. Assim que a vê, ANTONIO solta discretamente a mão de CLARICE.


EXT.PRÉDIO EM BOTAFOGO - DIA
ANTONIO chega sozinho à portaria do Bois du Bologne.
A MULHER de vestido listrado chega logo depois dele. Ele se dirige ao porteiro.

ANTONIO
Eu vim ver o apartamento que está para alugar.

MULHER
Eu também.

Irritado, ANTONIO mede a MULHER de cima a baixo. O PORTEIRO estende a chave na direção de ANTONIO.

MULHER
(para o PORTEIRO)
Posso subir também?

O PORTEIRO recolhe a chave.

PORTEIRO
Mas eu não posso sair da portaria agora. O apartamento está vazio, se a senhora quiser subir com o moço... (para ANTONIO) É no bloco B. Daqui a pouco eu vou pro almoço. Na saída, o senhor deixa
a chave com o porteiro da tarde, viu?

MULHER mede ANTONIO por um segundo e pega a chave da mão do PORTEIRO. ANTONIO bufa discretamente. A MULHER sai andando sem esperar que o PORTEIRO dê as indicações de como chegar ao apartamento.


EXT.PÁTIO DO PRÉDIO DE BOTAFOGO - DIA
A MULHER vai na frente, sem nem reparar na aléia de plantas no meio dos dois prédios de apartamento altos, beges, com a pintura descascada e reboco caindo. ANTONIO a segue quase correndo, tentando olhar em volta. Ele vê o playground vazio, com brinquedos descascados e quebrados. Ouve-se o barulho de uma multidão de crianças brincando. ANTONIO sacode a cabeça como que para espantar os gritos. O barulho pára.


INT.HALL DO PRÉDIO - DIA
A MULHER de vestido listrado e ANTONIO chegam ao hall do bloco B. A MULHER coloca um cigarro na boca. Uma SENHORA está lá esperando o elevador. O elevador chega, os três entram.


INT.ELEVADOR - DIA
O elevador é mínimo e ANTONIO precisa grudar o corpo na MULHER para não encostar na SENHORA. Quando a SENHORA sai do elevador, olha feio para a MULHER, que está com o cigarro apagado na boca. Assim que a porta se fecha, a MULHER acende o cigarro, ignorando a placa de não fumar. ANTONIO se afasta um pouco dela.

ANTONIO
Você já viu muitos?

MULHER
É o segundo. Mas são todos umas merdas.

ANTONIO
Por que você está se mudando?

MULHER
Porque sim.


INT.CORREDOR DO PRÉDIO - DIA
CLARICE desce do elevador tossindo de leve e se abanando, depois descem a MULHER de vestido listrado e ANTONIO. A MULHER tenta abrir a porta do apartamento, mas está tremendo.

ANTONIO
Posso tentar?

ANTONO tira a chave da mão dela, coloca na fechadura e abre a porta facilmente.


INT.APARTAMENTO DE BOTAFOGO - SALA - DIA
A MULHER entra no apartamento, espia em volta e se dirige ao banheiro. CLARICE também entra, depois entra ANTONIO.

CLARICE
(baixinho para ANTONIO)
Que mulher mais esquisita!

ANTONIO sorri para CLARICE e observa a MULHER que está entrando no banheiro. Ele vai até a janela da sala e, de olhos fechados, delicia-se com a brisa. Quando percebe, CLARICE está a seu lado, encostando-se nele. Ele se afasta um pouco. ANTONIO e CLARICE analisam o morro e a favela em frente.

CLARICE
Parecem umas formiguinhas.

O olhar de ANTONIO segue as pessoas descendo o morro.
Ao olhar para baixo, ANTONIO vê a piscina, que não tem ninguém, e ouve, ao fundo, um barulho de crianças brincando. CLARICE também observa a piscina, depois sorri para ANTONIO. Ela o beija. Durante o beijo, ANTONIO olha a favela.


INT.APARTAMENTO - SALA - DIA
ANTONIO, que está sozinho olhando a favela pela janela, vira-se para observar a porta fechada do banheiro. Então nota calombos na parede do lado oposto ao da janela. Ele aperta um calombo, que cede. A MULHER sai do banheiro com a maquiagem retocada e os olhos vermelhos. Ela está fumando novamente. ANTONIO olha demoradamente para ela. Depois, aponta para um dos calombos.

ANTONIO
Deve ser de tiro. É por isso que
o aluguel é tão barato.

MULHER
Você acha barato por uma porcaria destas? Então dá olhada no banheiro, é totalmente ridículo.

ANTONIO
Barato em relação ao preço de mercado. Acho que por causa dos tiros.

MULHER
Pode ser, mas a favela é longe.

ANTONIO
Que nada! Tiro de fuzil alcança dois quilômetros.

MULHER
Você é da polícia?

ANTONIO
Não, sou jornalista.

Sem qualquer reação, a MULHER anda até a janela e atira o cigarro. Ela se debruça no parapeito para observá-lo cair.

MULHER
É uma boa altura.

ANTONIO fica excitado com a atitude dela. Ele vai até a janela e se encosta deliberadamente no corpo da MULHER, que está de costas para ele. A MULHER se vira, encara ANTONIO por alguns segundos e vai para o quarto que fica à direita do corredor.


INT.APARTAMENTO - SALA - DIA
Ainda encostados no parapeito da janela, ANTONIO e CLARICE observam a MULHER sair do banheiro com a maquiagem retocada e os olhos vermelhos. Ela está fumando novamente. CLARICE revira os olhos sem que a MULHER veja. A MULHER encara ANTONIO sem que CLARICE perceba. ANTONIO aponta para um dos calombos na parede da sala.

ANTONIO
Devem ser tiros. Por isso o aluguel é tão barato.

CLARICE
Então, acho que tá visto. Vamos?

MULHER
Barato? Mas é uma porcaria! Vocês deviam ver o banheiro. É ridículo.

ANTONIO
Tá barato em relação ao preço de mercado. Por causa dos tiros.

Demonstrando impaciência, CLARICE vai até o banheiro.

MULHER
Pode ser, mas a favela é muito longe.

ANTONIO
Longe nada. Tiro de fuzil alcança dois quilômetros.

MULHER
Você é da polícia?

ANTONIO
Não, jornalista.

A MULHER anda até a janela e atira o cigarro. Ela se debruça no parapeito para observá-lo cair.

MULHER
É uma bela altura.

ANTONIO corre para seu lado e quase coloca a mão no ombro da MULHER, mas se segura. Ela se vira, os dois se encaram por alguns segundos, e a MULHER segue para um dos quartos ainda soltando fumaça. CLARICE, que está voltando do banheiro, cruza com ela e abana-se de novo.

CLARICE
(sussurando para ANTONIO)
Ainda bem que você parou de fumar. Não suporto esse cheiro.


INT.APARTAMENTO - QUARTO DA ESQUERDA - DIA
ANTONIO entra no quarto, que é quadrado, tem as paredes recém-pintadas e um armário embutido. CLARICE entra também.

CLARICE
(baixinho para ANTONIO)
Eu achei o banheiro a melhor coisa do apartamento.

ANTONIO sorri e espia secretamente a MULHER de vestido listrado, que olha pela janela do quarto em frente. CLARICE abre as gavetas do armário. A última gaveta emperra. Ela força e um sutiã pequeno e empoeirado cai no chão. Ela pega o sutiã e o levanta pela alça, com nojo, e depois larga a peça no chão e sai do quarto. ANTONIO fica observando o sutiã.


INT.APARTAMENTO - QUARTO DA DIREITA - DIA
Este quarto é retangular e um pouco maior do que o outro. A janela, como a da sala, também dá para a favela. A MULHER está agachada no chão.

MULHER
Ei, vem ver uma coisa.

Quando ANTONIO entra no quarto, ela usa uma caneta preta grossa para desenrolar uma cortina japonesa que está no chão. De pé, ANTONIO observa os peitos da MULHER pelo decote. A MULHER percebe que ele está olhando e o encara, estufando o peito e mostrando ainda mais os seios. Depois, a MULHER se levanta com a cortina na mão e aponta para um buraco no tecido.

MULHER
Você estava certo. Os tiros entram direitinho pela janela. O cretino do proprietário quer alugar o apartamento e deixa isto aqui? Ele achou que a gente não ia perceber?
ANTONIO chega perto da janela e olha para baixo.

ANTONIO
Não há crianças no playground. As pessoas estão abandonando o prédio com medo de morrer.

A MULHER larga a cortina e chega perto de ANTONIO.

MULHER
(no ouvido de ANTONIO)
Morrer não tem a menor importância. O horrível é ficar velha.


INT.APARTAMENTO - COZINHA - DIA
CLARICE passeia pela cozinha abrindo e fechando com nojo os armários empoeirados. Ao longe, ouve-se ANTONIO e a MULHER conversando.


INT.APARTAMENTO - QUARTO DA DIREITA - DIA (continuação da cena)
ANTONIO
Por que você está dizendo isso?

MULHER
Porque eu tenho 34 anos.

A MULHER encara ANTONIO. Os dois estão muito próximos.

ANTONIO
(sem convicção, afastando-se)
Mas não parece. E qual o problema de ter 34 anos?

MULHER
Ele não gosta.

ANTONIO
Ele quem?

MULHER
Ninguém... Quantos anos você tem?

ANTONIO
32.

MULHER
Ele tem 50.

ANTONIO
(chegando bem perto dela)
Ele te abandonou? É por isso que você vai se mudar?


INT.APARTAMENTO - ÁREA DE SERVIÇO/COZINHA - DIA
CLARICE entra no pequeno quarto de empregada. Há um colchão no chão e um armário embutido. Ao longe, ouve-se ANTONIO e a MULHER conversando. CLARICE vai até a porta da cozinha e olha para o fundo do corredor.

CLARICE
(fala alto)
Antonio, vamos? A gente ainda tem que almoçar na minha mãe.


INT.APARTAMENTO - QUARTO DA DIREITA - DIA
A MULHER de vestido listrado começa a chorar com raiva e se joga sobre ANTONIO com os braços dobrados e os punhos cerrados.

MULHER
(aos gritos)
Ele não me abandonou, tá? Ele não me abandonou.

ANTONIO segura os punhos da MULHER calmamente e apenas observa seu rosto.

MULHER
Mas o filho da puta está comendo uma garota de 18 anos. Dezoito anos! Você sabe o que é isso?

Incomodado, ANTONIO tenta afastar um pouco a MULHER.

ANTONIO
Essas coisas acontecem...

A MULHER o empurra com raiva e se afasta.

MULHER
Vocês são todos uns merdas mesmo! Você pensa que eu não te vi acariciando aquele sutiã velho e sonhando com os peitinhos da dona dele? Eu posso ter 34 anos, mas até hoje nunca precisei usar um sutiã!

Num só golpe, a MULHER pára de chorar e tira o vestido.


INT.APARTAMENTO - SALA - DIA
CLARICE olha pela janela. Vai até a parede e cutuca o buraco de tiro até que a massa se solte totalmente. ANTONIO vem pelo corredor e pára antes de entrar na sala. Ele está um pouco alterado e respira fundo para se recompor. CLARICE não percebe.

CLARICE
O que você achou?

ANTONIO
Se for mesmo baratíssimo, até que não é ruim. Mas a moça encontrou uma cortina com um furaço de bala no quarto.

CLARICE
Não é o apartamento dos meus sonhos, mas se você acha que é o melhor pelo que a gente pode pagar, tudo bem. Você decide.

ANTONIO faz que não com a cabeça. CLARICE sorri. Depois passa por ele e vai em direção à saída. Ele a segue com os olhos.

ANTONIO
Espera um pouco.


INT.APARTAMENTO - QUARTO DA DIREITA - DIA
ANTONIO entra no quarto. A MULHER está olhando pela janela e fumando. ANTONIO chega muito perto dela.

ANTONIO
A gente está saindo. Você deixa a chave com o porteiro?
A MULHER se vira. Com os corpos quase grudados frente a frente, os dois se encaram por alguns segundos.


EXT.RUA - DIA
ANTONIO e CLARICE passam o portão do prédio e andam em direção ao carro.

CLARICE
Às vezes, parece que a gente não vai nunca encontrar um lugar perfeito pra nós.

ANTONIO
Você ainda acredita que existe um lugar perfeito pra nós?

CLARICE sorri sem graça.

ANTONIO
E se eu decidisse que nós devemos ficar com esse apartamento?

CLARICE
Como eu disse, não é o lugar perfeito, mas se você acha que é um bom negócio...

ANTONIO
Quer dizer que você viria morar aqui?

Entristecida, CLARICE dá de ombros.

ANTONIO
Às vezes, você parece uma criança. Por que não fala o que quer? Por que não diz que nunca toparia morar num apartamento cheio de furos? Você tem medo até de passar na frente de uma favela!

Ofendida, CLARICE anda mais rápido que ANTONIO e atravessa a rua. Ela espera ao lado do carro. Quando olha para ANTONIO, ele está parado do outro lado da rua, admirando a favela.


INT.APARTAMENTO - QUARTO DA DIREITA - DIA
ANTONIO olha os seios perfeitos da MULHER. Ele se aproxima e começa a acariciá-los com força enquanto coloca a mão por dentro da calcinha dela. A MULHER desata o cinto dele com determinação e se ajoelha. ANTONIO respira ofegantemente e quase perde o equilíbrio. Ele empurra a cabeça da MULHER para longe e tira os sapatos e a calça. Ela fica de pé, encara ANTONIO e tira a calcinha.

MULHER
Você quer que eu fique de sapatos?

Excitado, ANTONIO observa os sapatos pesados e faz que sim com a cabeça.

MULHER
É incrível, mas todos os homens são homossexuais enrustidos.

ANTONIO finge que não ouve. Ela se afasta um pouco dele e acende um cigarro. Ele a puxa de volta.

ANTONIO
Você fuma demais.

A MULHER traga o cigarro e dá um beijo na boca de ANTONIO, soltando a fumaça dentro dele. Ele aspira com prazer e se deixa cair no chão lentamente, puxando a MULHER com ele. Os dois se deitam no chão e começam a se beijar.

MULHER
Quer que eu faça com você uma coisa que sempre eu sempre faço com ele?

ANTONIO faz que sim com a cabeça.

MULHER
Então vira de bruços.

ANTONIO tira o cigarro da mão dela e apaga no cinzeiro.

MULHER
Eu não sou sádica!

ANTONIO se vira lentamente de bruços, sempre encarando a MULHER. Ela sobe em cima dele, esfrega-se em seu corpo.

MULHER
Meu tesão, vou te comer todinho. Você quer? Quer que eu te coma?

A MULHER se esfrega no corpo de ANTONIO mais algum tempo e goza. Os dois se viram de barriga para cima. A MULHER encosta a cabeça no peito de ANTONIO e começa a arranhá-lo com as unhas.

ANTONIO
Não faz isso.

A MULHER continua com mais força. ANTONIO segura o braço dela.

ANTONIO
Pára. Você quer que minha noiva descubra?

A MULHER se desvencilha dele, dá uma gargalhada artificial.

MULHER
Você tem noiva? Não acredito. E cadê a aliança?

ANTONIO
Não uso. Mas eu e a Clarice vamos nos casar. Por que você acha que estamos procurando apartamento?


INT.APARTAMENTO DE IPANEMA - SALA - DIA
ANTONIO e CLARICE entram na sala. É muito pequena, mas clara e bem conservada, com paredes brancas. CLARICE vai para a pequena varanda e dá um grito. ANTONIO corre até ela e ela aponta para a estátua do Cristo, que pode ser entrevista no meio vários prédios. Felicíssima, ela abraça ANTONIO e lhe dá um beijo na boca. ANTONIO abre os olhos e fica encarando o Cristo.

CLARICE
Vamos ficar com este? É bem pequeno, eu sei, mas é limpo, bonito, novinho e, em lugar da favela, a gente vê o Cristo! E o preço é o mesmo... Por favor, por favor, por favor?

ANTONIO dá um sorrizinho e faz que sim com a cabeça.


INT.APARTAMENTO DE BOTAFOGO - QUARTO - DIA
Ainda nua, a MULHER se levanta do chão, onde estava deitada com ANTONIO, e começa a pegar suas roupas.

MULHER
Melhor eu ir. Não quero atrapalhar a vida de vocês. Quantos anos tem essa Clarice.

ANTONIO
(pensa um segundo)
Dezenove.

A MULHER fica nervosa. Ela coloca o vestido pelo avesso e se atrapalha na hora de tirar para virá-lo. Então, fica nua, de pé, chorando com o vestido na mão. ANTONIO, que continua deitado e pelado, só olha para ela, esperando calmamente. Ela enxuga as lágrimas devagar.

MULHER
Você tem camisinha?

ANTONIO
Não. Não uso. Eu e a Clarice somos fiéis.

MULHER
Cara de pau! Mas eu e ele não somos fiéis. E eu estou certíssima de não confiar em ninguém.

A MULHER remexe dentro da bolsa e tira um pacotinho de camisinha. Ela o joga para ANTONIO.

MULHER
Nem pense em fazer qualquer perversão senão eu grito.

ANTONIO
Você? Só se for de prazer.

A MULHER dá um risinho e encara ANTONIO enquanto acende um cigarro. ANTONIO vai até o banheiro com a camisinha na mão.


INT.APARTAMENTO - BANHEIRO - DIA
ANTONIO observa demoradamente a banheira, os azulejos brancos com figuras de Vênus e anjinhos azuis tocando trombetas e o espelho com bordas trabalhadas em metal prateado. Com a unha, ele tenta descascar o rosto de um dos anjinhos.


INT.APARTAMENTO - QUARTO DA DIREITA - DIA
ANTONIO volta para o quarto. A MULHER está totalmente nua, deitada de costas num colchãozinho.

MULHER
Encontrei no quarto da empregada. Mais gostoso, né?

ANTONIO se deita e a MULHER o beija com ansiedade e paixão, subindo em cima dele.


INT.APARTAMENTO - QUARTO - ENTARDECER
ANTONIO e a MULHER estão deitados no colchãozinho, abraçados, iluminados por uma luz amarelada de fim de tarde. Os dois ouvem tiros ao fundo.

ANTONIO
A gente poderia até morrer junto aqui.

A MULHER permanece de olhos fechados.


INT.APARTAMENTO DE IPANEMA - SALA - NOITE
Vestida de camiseta e calça branças, com um avental branco por cima, CLARICE, agora com os cabelos bem curtos e pretos, entra no pequeno apartamento com vista para o Cristo. A sala está muito arrumada, toda decorada com móveis brancos mínimos. Na varanda há várias plantas. Ela segue até a varanda. ANTONIO está lá sentado no escuro, fumando um cigarro e olhando para o Cristo iluminado. CLARICE acende a luz da varanda.

CLARICE
Você estava esperando o que para me dizer que tinha saído do caderno de cultura?

ANTONIO
Eu ia dizer...

CLARICE
Mas por que sair justo agora que você estava na boca de virar editor? Não era isso que você queria?

ANTONIO vai respoder, mas é interrompido por CLARICE.

CLARICE
Você sabe que cobrir polícia nessa cidade é um perigo, não sabe? Não viu o que fizeram com o Tim Lopes? Eu sou obrigada a ver gente baleada o tempo todo no hospital. Eu sei o que é isso. Você ficou maluco?! Não precisava se meter nessa história. Você pensa que é herói? Você acha que eu vou ficar acordada a noite toda sabendo que meu marido está pra lá e pra cá atrás de traficante, assassino e policial?

ANTONIO
(negando com a cabeça)
Você não vai ter que ficar mais um minuto acordada por minha causa.

ANTONIO apaga o cigarro em um dos vasos de CLARICE e se levanta. Os dois ficam cara a cara. CLARICE se afasta e ele sai do apartamento batendo a porta.


INT.APARTAMENTO DE BOTAFOGO - QUARTO - NOITE
A MULHER de vestido listrado já está quase vestida. A única luz vem de fora. ANTONIO continua nu deitado no colchão.

ANTONIO
Você vai alugar esse?

MULHER
Você só pode estar brincando, né?

ANTONIO
Você vai voltar pra ele?

MULHER
(dando de ombros)
Agora eu posso.

ANTONIO
Você vai contar o que aconteceu aqui?

MULHER
Acho que sim... Mas você não vai falar nada para a sua noivinha, vai? Acho que ela não perdoaria sua infidelidade.

ANTONIO
Quem te disse que eu quero ser perdoado?

A MULHER ri cinicamente e vai para a porta do quarto. Ela pára e olha para ANTONIO. O jornalista vira a cara com desinteresse e olha para fora da janela. A MULHER sai. Segundos depois, ouve-se o barulho de uma porta batendo. ANTONIO continua deitado olhando pela janela e ouvindo os tiros que recomeçaram. Ao seu lado, no local onde estava a bolsa da MULHER, há um caderno de jornal meio amassado.


INT.APARTAMENTO - SALA - ENTARDECER
ANTONIO, com outras roupas e cabelo um pouco mais comprido, está sozinho na sala do apartamento do edifício Bois de Boulogne. O sofá-cama velho que estava na quitinete agora fica debaixo da janela, há uma estante com alguns livros e uma televisão pequena na parede oposta, que tem marcas de balas, e uma mesinha de ferro encostada num canto ao lado da TV. Sobre ela, há um computador. O monitor está com o vidro estourado. Na sala há livros e jornais espalhados, copos sujos e cinzeiros cheios. ANTONIO fuma agachado, encostado na parede ao lado do sofá. De vez em quando, ouve tiros e espia com um binóculo pela janela, de onde entra um pouco de luz amarelada de fim de tarde. Ele se agacha e segue engatinhando em direção ao quarto da empregada.


INT.APARTAMENTO - QUARTO DA EMPREGADA - NOITE
ANTONIO está escrevendo à mão, sentado no mesmo colchão em que ele e a MULHER de vestido listrado transaram. Ele faz uma ligação pelo telefone do fax.

VOZ (OFF)
Redação de O Diário, boa noite.

ANTONIO
Oi, Fátima, me dá o sinal do fax.

ANTONIO envia algumas páginas escritas à mão. Então, ele vê que não tem mais papel em branco. ANTONIO começa a abrir as gavetas do armário embutido. Abre a última, retira um maço de papéis, e, ao fechá-la, repara que um jornal caiu no chão. É um caderno de classificados amarelado, com um dos anúncios circulado por uma caneta preta grossa. ANTONIO fica olhando para o anúncio um bom tempo e começa a amassá-lo. Então ouve um tiro bem próximo e se assusta.


INT.APARTAMENTO - SALA - NOITE
ANTONIO vai até a sala sem se agachar e olha pela janela para o pátio do prédio. Ele vê um homem morto dentro da piscina iluminada. A água está sendo tingida de sangue. Ele se senta no sofá debaixo da janela, retira o jornal amarelado de cima do maço de papel, alisa-o, coloca-o sobre o sofá e, ainda olhando para o anúncio, começa a escrever na primeira folha do maço: "Morrer é muito fácil no Bois de Boulogne".

FIM

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