CENA 1. INT. DENTRO DE UM TEATRO. DIA
Dois atores e um diretor estão sobre o palco. Na platéia, estão sentadas pessoas da produção e MARIA EDUARDA, que anota num bloquinho.
ATOR 1 – Filha minha não casa com filho de jogador!
ATOR 2 – Então fique sabendo que Marialva não é sua filha!
DIRETOR – Ok. Excelente! Podem descansar meninos.
O ATOR 1 desce do palco e vai em direção a EDUARDA, que se levanta.
ATOR 1 – Oi, você é da revista, né?
EDUARDA – (estendendo a mão) Isso, Maria Eduarda, tudo bem? Você tinha me dito que a peça era de arte. Eu achei mais pra comédia.
ATOR 1 – (dá dois beijos nas faces de Eduarda) É... Comédia, arte... É aquele negócio de comédia del´arte, sabe?
CENA 2. INT. QUARTO DE MARIA EDUARDA. DIA
MARIA EDUARDA está dormindo. Seu quarto é pequeno, mas arrumado. Há uma cama de solteiro, um criado-mudo, uma poltrona e um armário. Sobre o criado-mudo há um telefone, um abajur, um iphone e alguns livros. A luz da manhã entra pelas frestas. Quando o TELEFONE TOCA, ela acorda assustada, mas logo atende.
MARINA (V.O.) - Eduarda, menina, você a-rra-sou!
EDUARDA (Checando as horas) - Eu? Oi, Marina, que que eu fiz?
MARINA (V.O.) - Como assim? Acorda, Maria Eduarda! Acabei de ler a
matéria sobre o Guilherme. Cara, eles vão ficar muito bravos! E a foto da capa, então? É o máximo!
EDUARDA sorri, se espreguiça e continua na cama, conversando animadamente ao telefone, sem som.
CENA 3. EXT. RUA. DIA
EDUARDA andando na rua. Chega numa banca de jornais. O jornaleiro, seu FLÁVIO, está arrumando umas revistas.
EDUARDA - Bom dia, seu Flávio, leu minha matéria?
FLÁVIO - Ainda nem tive como ver a revista hoje, menina. Cadê?
EDUARDA pega a revista e mostra a capa para seu Flávio.
EDUARDA - Minha primeira capa. E a reportagem tá aqui ó. Deu um trabalhão. Fiquei mais de dois meses atrás desses caras. Mas valeu. Consegui provar que o sujeito posa de galã, mas é uma bichinha.
FLÁVIO (olhando a matéria) - Ah, quer dizer que o moço da novela tem um namorado de 16 anos!? Mas que besta! Ele podia ter a mulher que quisesse! Que beleza, heim? Vou deixar a revista bem aqui na frente. Vai vender como água... Mas como você conseguiu pegar o moço?
Alguns clientes ficam por ali discretamente para a ouvir o relato de EDUARDA.
EDUARDA - Bom, primeiro eu fiquei sabendo da história perguntando aqui e ali, para os amigos dele... e os inimigos, claro (ri). Mas eu peguei os dois mesmo numa festa...
CENA 4. INT. CASA ONDE ACONTECE UMA FESTA. NOITE
EDUARDA anda pelo imenso salão observando atentamente os convidados e a decoração. Os garçons estão fantasiados de Marilyn Monroe, Madonna e odaliscas. A decoração é exagerada, quase cafona. A música está bem alta. Os convidados conversam em rodinhas. Mais ao fundo, em uma sala toda envidraçada com vista para o jardim e para a piscina, algumas pessoas dançam.
CENA 5. EXT. JARDIM DA CASA DA FESTA. NOITE
MARIA EDUARDA sentada num banquinho ao lado de dois garotos. Os três tomam champanhe.Podemos ouvir a música dançante da festa. Entre os arbustos, canhões jogam luzes coloridas para todos os cantos.
EDUARDA - (fingindo-se encantada) - Mas vocês conhecem mesmo o Guilherme Rocha? De verdade? Já falaram com ele?
RAPAZ 1 - Claro que sim! Ele vive nesses eventos de Copa. Não tem um que ele não vá.
EDUARDA - Mas que tipo eventos?
RAPAZ 1 - Gays, ora!
EDUARDA (fingindo espanto) - Ah! Ele é gay? Mas como é que ninguém nunca fala dessas coisas? Nunca sai nos jornais, nas revistas...
RAPAZ 1 (solta uma risada) - Porque ele é esperto. Primeiro que nessas festas jornalista não entra. Os que vão, ou são gays ou amigos dos gays. Depois que ele só aparece nas festas de madrugada, quando sabe que não tem perigo. Fora que não sai nada no jornal sem o Guilherme ou aquele assessor dele saberem. Ele não perde uma festa e o Marcos sempre vai junto.
EDUARDA - Marcos? Quem é?
RAPAZ 1 - O namorado do Guilherme, ora!
RAPAZ 2 (dá uma ombrada no RAPAZ 1) - Para com isso, cara! Vai entregar toda a ficha do sujeito?
RAPAZ 1 - Ih, que é que tem? Tem um espião ouvindo a gente, por acaso? Que paranóia, credo. Uma fofoca light nunca matou ninguém.
EDUARDA (concorda com a cabeça) - Mas conta mais desse Marcos aí. O que ele faz da vida?
Contrariado, RAPAZ 2 se levanta e vai em direção à casa. Quando o RAPAZ 1 vai começar a falar, EDUARDA ajeita a bolsa discretamente.
CENA 6. EXT. JARDIM DA CASA DA FESTA. NOITE
EDUARDA passeia pelo jardim como se estivesse procurando algo. Vê um grupinho ao longe, em volta da piscina. Fica observando meio escondida por uma árvore. Ela tem uma taça cheia de champanhe na mão. Bebe um gole. CORTE. Eduarda, agora com a taça vazia na mão, vê GUILHERME e MARCOS se separando do grupo. Ele caminham abraçados, conversando e se dirigem a uma parte mais escura do jardim.
CENA 7. EXT. JARDIM DA CASA DA FESTA. NOITE
Detrás de uma árvore, EDUARDA vê MARCOS beijando GUILHERME. De tempos em tempos, um dos canhões joga uma luz sobre o rosto do ator. EDUARDA tira uma câmera do bolso. Põe só a cabeça para fora de seu esconderijo e fotografa no momento em que a luz atinge o rosto de GUILHERME. EDUARDA se esconde atrás da árvore. Segundos depois, tira outra foto e depois outra. Quando vai embora toda feliz, EDUARDA checa o gravador na bolsa, pega o celular e começa a discar.
CENA 8. INT. REDAÇÃO DA REVISTA. DIA
EDUARDA entra cantarolando.
REPÓRTER - O Olavo pegou seu recado e a Marcela está histérica pra saber dos detalhes da festa. Melhor você correr lá na sala que eles tão te esperando.
EDUARDA dá um sorriso, deixa a bolsa displicentemente sobre sua mesa e vai para a sala da diretora de redação.
CENA 9. INT. SALA DA DIRETORA DA REVISTA. DIA
MARCELA, a diretora, está sentada em sua escrivaninha e mexe no computador. OLAVO, o editor, está sentado de frente para a mesa.
OLAVO (em tom de censura) - Finalmente, a nossa repórter.
EDUARDA - Desculpem... Mas eu fiquei na festa até cinco da manhã...
MARCELA - E?
EDUARDA - Guilherme Rocha está namorando mesmo aquele Marcos. Fiquei sabendo que ele quer ser ator. Eles se conheceram há uns quatro meses quando o Marcos fez um teste para A Conquista do Paraíso.
MARCELA (com um ar meio blasè) - Você tem certeza?
EDUARDA - Eu vi os dois se beijando. Tenho frases de amigos deles...
MARCELA - Você sabe que isso não é suficiente para nós.
EDUARDA - Eu tenho fotos! Não sei se estão boas...
MARCELA - Por que não falou logo, garota? Então traz já essas fotos aqui. E pode começar a escrever a matéria. Entra nesta edição. Capa!
EDUARDA vai saindo meio insegura.
MARCELA (fala para a redação inteira escutar)- Olha, garota, se essa história não for verdadeira, nem precisa voltar pra redação amanhã!
CENA 10. EXT. BANCA DE JORNAIS. DIA
VOLTA PARA A CENA 3. O jornaleiro, atento a EDUARDA, dá o troco para uma moça, as pessoas da cena 3 ainda ouvem a história.
EDUARDA - Pô, minha chefe é uma verdadeira vaca. (imitando Marcela) Nem precisa voltar aqui amanhã... Agora, dizer que a matéria ficou do cacete, que eu mereço um aumento, que por minha causa a revista vai vender horrores, isso nada!
JORNALEIRO - Vai vender muito, garota. Você vai ver.
EDUARDA (para si mesma) - Vai vender, mas o que eu ganho com isso?
CENA 11. INT. REDAÇÃO. DIA
Sentada em frente a sua mesa, EDUARDA fala ao telefone.
EDUARDA - Mas Nenê, coração, é minha obrigação esclarecer as coisas para os meus leitores... (ouve) Claro que eu não tenho nada contra os gays, o que você acha? A gente não é amigo há mais de 5 anos? (ouve) Claro que eu não exporia você. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ele é famoso. E fica posando de macho... (ouve) Tá, ele tem o direito. Mas se ele quisesse privacidade, não estaria na tevê todo dia, não circularia por aí com meninas que fingem ser suas namoradas... (ouve fazendo caretas de quem está sem paciência) Mas... Nenê... (quase histérica) Bom, se você não gosta, azar, é o meu trabalho! Alô, Nenê...
EDUARDA desliga o telefone e faz cara de resignada. Depois tira de novo o bocal do gancho. Disca um número.
EDUARDA – Boa tarde, eu queria falar com o Alberto Munhoz, por favor... Oi, Alberto, aqui é a Maria Eduarda Gois, da revista Flagra... (ouve) Fui eu... fui eu que fiz a matéria... (ouve) Eu sei que o Guilherme deve ter ficado chateado, Alberto, mas eu preciso saber se ele tem alguma coisa a dizer...
EDUARDA coloca o telefone no gancho e fala para REPÓRTER ao lado.
EDUARDA - Se mais alguém bater o telefone na minha cara eu vou chorar.
REPÓRTER – Foi você quem pediu...
EDUARDA olha para REPÓRTER com desdém e atende o telefone que TOCA.
EDUARDA - Sim?... (ouve) Oi, tudo bom?... (ouve) Como eu consegui o furo do Guilherme? Bom, fazendo reportagem, né?, querida, indo atrás, virando noites sem dormir, abusando da cara de pau... (ouve) O telefone? Não dá, os... meninos pediram segredo... (ouve) O contato do assessor? Olha, o nome dele é Alberto, mas o tel eu não tenho... (ouve) É, não anotei porque ele não ia querer falar comigo mesmo... Mas liga lá na emissora que eles te passam... (ouve) Beleza... (ouve) Imagina, pra você também... (desliga) Bando de preguiçosos! (Para repórter) Ela queria simplesmente que eu desse o telefone e endereço de todas as minhas fontes. É o fim!
CENA 12. EXT. PRAIA. DIA
EDUARDA e sua amiga MARINA na praia lotada num fim de semana.
MARINA - Eu não aguento mais meu chefe. Ele nem ouve direito o que eu falo e ainda por cima vive olhando pras minhas pernas e pros meus decotes. Eu agora só vou trabalhar de blusão e calça jeans folgada, mesmo quando está um calor de 100 graus! Haja.
EDUARDA - Nem me fale. A minha é uma pentelha. Sabe que eu não ganhei nem um aumento pelo furo do Guilherme? E olha que foi a maior venda da revista este mês. Tudo bem que agora eu sou (enfatiza) um pouco mais respeitada nas reuniões de pauta... E o Olavo conseguiu um bônus pra mim. Vai dar para pagar o inglês...
MARINA - Ih, eu já desisti de aprender inglês.
EDUARDA - Que é isso? Quer passar o resto da vida fazendo matéria de defunto pro caderno de cidades? Eu, heim! Tô fora.
CENA 13. INT. REDAÇÃO. DIA
EDUARDA está em sua mesa digitando. Sobre a mesa, umas revistas. Uma delas tem como manchete: Ator da Novela das Oito Perde o Emprego. OLAVO se aproxima.
OLAVO - O Guilherme conseguiu se livrar do processo. O juiz achou que apesar de ser menor, Marcos não é mais tão criança assim.
EDUARDA - Ainda bem. Pelo menos não vou ter que cobrir o julgamento. Esse cara já deve me odiar muito. E seria um absurdo ele ser processado, né?
OLAVO - Com certeza. Ah, e outra boa notícia: o Guilherme não vai processar a editora. Descobriu que nem adianta tentar. Ou seja, perdeu o emprego na TV e ficou sem a grana que achou que ia tirar da gente.
EDUARDA - Coitadinho. Vou ligar lá e ver se ele quer um empréstimo...
OLAVO - Esse já era. Melhor você olhar bem antes de atravessar a rua...
OLAVO e EDUARDA caem na gargalhada demonstrando intimidade. OLAVO se afasta e EDUARDA olha o jornal que está sobre sua mesa. Ela tira uma tesoura da gaveta e recorta uma nota que tem como título: Pombinhos proibidos.
EDUARDA (para si) - José Luiz Mendonça e Marta Gioconda. Tem que ser.
CENA 14. (SÉRIE DE PLANOS) EXT./INT. FRENTE DA CASA DA ATRIZ. NOITE/AMANHECER
EDUARDA (com a mesma roupa da cena anterior) está encostada em um carro, observando a casa. / EDUARDA comendo dentro do carro. / EDUARDA dormitando no carro. / EDUARDA bebendo um café fora do carro. / EDUARDA fumando um cigarro. / EDUARDA vendo o amanhecer com cara de exausta.
CENA 15. EXT/INT FRENTE DO PRÉDIO DO DIRETOR DE TV. NOITE
EDUARDA (com roupa diferente da cena anterior) atende o celular.
EDUARDA – Alô... (ouve) Não, Marina, agora não dá. Tenho que ficar aqui caso eles cheguem... (ouve) A mulher dele só volta amanhã. Vou pegar os dois no flagra, você vai ver... (ouve) A noite toda de novo se precisar... (ouve) Isso, me faz uma visitinha...
(SÉRIE DE PLANOS) EDUARDA comendo um sanduíche. / EDUARDA ouvindo música no carro. / EDUARDA lendo uma revista. / EDUARDA fala ao celular.
EDUARDA (desiludida) – Marina? Tô indo embora. O pentelho chegou sozinho. Vamos sair?... (ouve) Você já está na cama?... (ouve) É, eu sei que são três da manhã... (ouve) Não, eu não posso amanhã, tenho que ficar aqui de tocaia.
CENA 16. EXT. FRENTE DA CASA DA ATRIZ. NOITE
Agachada atrás do carro, EDUARDA observa um carro que estaciona do outro lado da rua. Dentro, um casal (o diretor e a atriz) conversa num clima de intimidade. EDUARDA abre um sorriso, pega o celular e tecla.
CENA 17. EXT. FRENTE DA CASA DA ATRIZ. NOITE.
EDUARDA ainda está agachada atrás do carro. Quando vê o fotógrafo chegando na esquina, faz sinal para ele se abaixar também. Ele vem abaixado, escondendo-se atrás dos carros, até onde ela está. Eles se cumprimentam com dois beijinhos, agachados.
RODRIGO (meio de gozação) - Caramba, Eduarda, pauta domingo à noite?
EDUARDA - Pô, e eu que passei o fim de semana todo aqui!? Eles estão ali. (ela aponta o carro estacionado do outro lado da rua.)
RODRIGO arruma a câmera e se levanta para conseguir enxergar melhor os dois. Ele atravessa a rua e fica esperando bem perto do carro do casal. Quando o DIRETOR e a ATRIZ começam a se beijar, RODRIGO faz uma série de fotos pelo vidro traseiro do carro. O flash espoca várias vezes. Só depois que ele tira várias fotos, o DIRETOR sai do carro e vai na direção dele, gritando. RODRIGO corre para EDUARDA, que está dentro de seu carro, já ligado. Ele entrega a câmera para ela pela janela. O FOTÓGRAFO continua descendo a rua com o DIRETOR atrás dele. EDUARDA vai embora com a máquina fotográfica.
CENA 18. INT. REDAÇÃO. NOITE
MARIA EDUARDA está ao telefone quando RODRIGO chega.
EDUARDA - Pois é, Olavo, consegui. Peguei os safados. O Rodrigo fez as fotos, tá tudo certíssimo. (ouve) Beleza, fechamos amanhã, então.
RODRIGO - Ô, Eduarda, tinha que me deixar lá sozinho?
EDUARDA - Conseguiu se livrar ou apanhou da fera?
RODRIGO - Ih, aquele cara não é de nada. Assim que você foi embora, ele desistiu de correr atrás de mim. Acho que percebeu que não adiantava mais.
EDUARDA – Vai, mostra as fotos!
RODRIGO (pegando a câmera da mesa) - Você odeia muito esse povo, não?
EDUARDA (olha as fotos) - Eu não. Para odiar a gente precisa se importar. Essa aqui ficou boa... Eu quero mais é que eles se danem. E depois vêm com essa história de privacidade. Ai, preciso garantir meu espaço... Ah, por favor! Quem quer privacidade não vira ator, não se expõe na tevê todas as noites. Quando interessa, quando é pra ganhar viagem, comida, um jabazinho de empresa de celular, eles vêm correndo. Só que isso só vende na Caras. Aqui a gente tem que falar mal para vender. E a gente está aqui para vender, certo? RODRIGO - Certo. Eu também não tenho nada contra eles. Mas tenho o direito de tentar a foto, né? E eles têm o direito de fugir (ri). É um jogo. Eles querem se esconder, as pessoas querem ver e eu quero mostrar. Tá tudo certo. Eles ganham bem pra isso.
EDUARDA (concordando com a cabeça) - E a gente não. Mas não tô nem aí. Até porque não pretendo ficar nessa história de fofoca por muito tempo.
CENA 19. EXT. FRENTE DO PRÉDIO DO DIRETOR DE TV. DIA
EDUARDA vai ao encontro de ROBERTA, uma moça que chega da praia acompanhada de uma BABÁ e uma CRIANÇA num carrinho.
EDUARDA - Oi, Roberta, desculpa atrapalhar seu passeio. Eu sou a Eduarda, da revista Flagra. Eu te liguei mais cedo...
ROBERTA (rispidamente) - O que você quer aqui? (para a babá, apontando a criança) Leva ela lá pra cima e vê se o Luizinho tá se aprontando pro almoço. (para Eduarda) Eu já te falei tudo pelo telefone. Essa história é absurda, o Zé Luiz jamais faria isso comigo. E a Marta é minha amiga. Agora some.
ROBERTA entra no prédio. EDUARDA está anotando num bloquinho quando seu celular toca. Ela faz uma cara de intrigada.
CENA 20. INT. SALA DA DIRETORA DE REDAÇÃO/REDAÇÃO. DIA
EDUARDA e OLAVO entram na sala de MARCELA. OLAVO traz alguns papéis nas mãos.
OLAVO (animadíssimo) - Está tudo aqui, Marcela. Parece que o Atílio Mascaro assaltou um banco no Uruguai e foi mesmo preso. A gente tem até matéria dos jornais da época. Esse Atílio mexia com drogas e era da pesada. O cara teve que trocar de nome pra virar ator. Sabe como ele chamava? Marcelo Mendes Penido! O sujeito nos mandou um dossiê completo.
MARCELA - Mas quem é esse sujeito?
EDUARDA - Ele não quis dizer. Só disse que detesta o Atílio. Parece que o Atílio era namorado da irmã dele e deixou ela morrer de overdose quando os dois estavam no Uruguai. Por isso o sujeito montou o dossiê.
MARCELA - E por que ele mandou pra você? Por que agora?
EDUARDA - Ele disse que gostou da matéria do Guilherme. Ele deve ter raiva desses atorzinhos folgados e achou que eu posso desmascarar o Atílio.
MARCELA - Bom, Olavo, distribua a apuração entre os repórteres. Quero tudo bem checado. A gente não tem tempo de ir ao Uruguai, mas vamos pegar a história daqui mesmo. Ah, a matéria da Marta e do Zé Luiz está pronta? (Olavo faz que sim com a cabeça) Passe pra eu ler. E corram com essa história. A gente tem que fechar às duas da manhã e eu não posso atrasar na gráfica. Semana passada a gente tomou uma multa de doze mil reais!
MARCELA volta a ler uma revista de decoração que está sobre sua mesa. OLAVO e EDUARDA saem para a redação.
OLAVO - Julio, Mariana e Priscila, preciso que vocês ajudem a Eduarda numa apuração.
Os JULIO, MARIANA E PRISCILA levantam de suas mesas e se dirigem à mesa de OLAVO. Eles para olham EDUARDA meio irritados.
CENA 21. INT. REDAÇÃO. DIA
JULIO está em sua mesa com o telefone na mão. OLAVO passa.
JULIO - Pô, Olavo, desse jeito nenhum ator vai querer falar com a revista. A gente só detona. Vai ser impossível trabalhar. O assessor do Atílio acabou de dizer pra eu nunca mais ligar pra ele.
OLAVO dá de ombros.
JULIO (para si) – Bom, então vou checar a história pela internet...
CENA 22. EXT. EM FRENTE AO PRÉDIO DE ATÍLIO. DIA
EDUARDA, com o gravador na mão, vê ATÍLIO chegando da praia e vai até ele. O ator está ao celular, mas assim que vê Eduarda desliga.
EDUARDA (escondendo o gravador) - Oi, Atílio, Maria Eduarda, da revista Flagra, tudo bem?
ATÍLIO (simpático, mas sem parar) - Oi, Maria Eduarda da revista Flagra. O que você quer comigo?
EDUARDA - É que a gente recebeu umas informações na revista e queria saber se é verdade. Me disseram que você foi preso no Uruguai há uns anos...
ATÍLIO (fingindo surpresa) - No-no-no-no Uruguai? Eu? É... Não... Não, não. Eu nem nunca fui pra Montevidéo... Nunca... Acho melhor você falar com meu assessor, ok? (entra no prédio)
CENA 23. INT. SALA DA DIRETORA DE REDAÇÃO. DIA
OLAVO, MARCELA e MARIO, o chefão, estão reunidos. EDUARDA entra.
EDUARDA - Falei com o Atílio. Ele não sabia onde se enfiar. Ficou vermelho, gaguejou, um horror.
OLAVO - A Priscila também checou lá no Uruguai e a história é verdadeira. Esse cara quando chamava Marcelo Penido aprontou muito por lá.
MARIO - Bom, o advogado está vendo os documentos. Ele acha que a gente não vai ter problemas. Se ele aprovar tudo, vale capa.
MARCELA - Com certeza. E damos um slash com a matéria do casal infiel.
OLAVO (sorrindo) - Se os chefes estão dizendo...
CENA 24. EXT. EM FRENTE À BANCA DE JORNAIS. DIA
EDUARDA está parada do lado da banca vendo muita gente comprar a revista e comentar sobre suas reportagens. Ela sorri e dá uma piscada para o jornaleiro.
EDUARDA - Eu ainda vou te deixar rico, seu Flávio.
Cena 25. INT. QUARTO DE EDUARDA. DIA
EDUARDA está dormindo. Ouvem-se a CAMPAINHA, o TELEFONE, o INTERFONE e o CELULAR tocando ao mesmo tempo. EDUARDA atende o telefone meio dormindo.
EDUARDA - Alô? (ouve) Oi, Olavo, tudo bem? (ouve) O quê? Como? (ouve) Você tá maluco, como assim? (ouve) Espera um pouco que eu tô indo praí.
CENA 26. INT. REDAÇÃO. DIA
EDUARDA entra na redação. Todos olham para ela. Alguns com cara de pena, outros de vingança. Ela ignora todos e vai direto para a sala da diretora.
CENA 27. INT. SALA DA DIRETORA DE REDAÇÃO. DIA
OLAVO, MARCELA, MARIO e ADVOGADO falam ao mesmo tempo. Eles se calam quando EDUARDA coloca a cabeça para dentro da sala.
OLAVO (para Eduarda) - A gente vai se ferrar.
EDUARDA (entrando) - Vocês podem me dizer o que aconteceu?
OLAVO - O Marcelo Mendes Penido que foi preso no Uruguai nunca foi o Atílio Mascaro. Era um homônimo. O advogado do Atílio ligou pra cá. Está entrando com um processo hoje!
EDUARDA - Então, o cara que mandou o dossiê quis ferrar com a gente?
MARCELA - Com a gente? Ou com você? Ah, e antes que eu me esqueça. A história do caso entre Marta Gioconda e José Luiz Mendonça também era bobagem. Ele, a mulher, a própria Marta e o marido apareceram na tevê de manhã e disseram que tudo não passou de fofoca. Que o diretorzinho e a Marta se beijam na boca desde que estudavam teatro, que isso é muito comum e que a gente é que é jeca... A concorrência vai deitar e rolar. EDUARDA - Mas péra aí, gente, o beijo que eu vi não era nenhum cumprimento. Era um beijão de verdade. A gente fotografou.
MARCELA - Bom, Maria Eduarda, agora não importa, né? Eles apareceram todos juntos, negaram tudo, estão felizes. E todo mundo está ridicularizando a revista por sua causa...
EDUARDA (baixinho para OLAVO) - Pelo menos o Guilherme é gay, né?
ADVOGADO - Ridicularizar não é nada. Esse tal de Atílio pode tirar uma fortuna da editora por causa dessa história. E esse casal aí com certeza vai entrar com processo.
EDUARDA - Mas não foi o senhor mesmo que disse que estava tudo bem?
ADVOGADO - Estaria tudo bem se você tivesse pegado a pessoa certa, ora.
MARIO (para Marcela) - Bom, agora o jeito é minimizar o prejuízo. Vocês podem dar uma carta na próxima edição dizendo que foi um mal entendido, que a revista nunca quis denegrir a imagem de ninguém, que a gente tem imenso respeito pelos famosos, que nossas reportagens são checadas e rechecadas, mas que erramos, e que a pessoa que fez isso já não trabalha mais para a revista! (sai)
OLAVO, MARCELA e ADVOGADO olham para EDUARDA, que está encurralada num canto da sala, sozinha.
CENA 28. EXT. CALÇADÃO DE IPANEMA EM FRENTE AO PRÉDIO DE ATÍLIO. DIA
EDUARDA, cabisbaixa, vem andando. A praia está cheia. Quando ela passa por um orelhão, ele começa a TOCAR. Ela atende.
ATÍLIO (V.O.) - Que bom falar com você, Maria Eduarda, da revista Flagra... Ai, querida, esqueci que você não trabalha mais na Flagra, né?
EDUARDA - Quem é?
ATÍLIO (V.O.) - Oh, tristeza, minha repórter favorita, não reconhece a minha voz. Dê uma olhadinha aqui pra cima, quem sabe assim você se lembra...
EDUARDA olha para o prédio do outro lado da rua. Seu olhar vai subindo da portaria até a cobertura, onde ela vê pessoas acenando da varanda.
CENA 29. INT. VARANDA DO APARTAMENTO DE ATÍLIO. DIA
ATÍLIO fala ao telefone. Ao seu redor, GUILHERME, MARCOS, MARTA, JOSÉ LUIZ e ROBERTA estão reunidos e ouvem a conversa no viva-voz.
ATÍLIO - A gente está aqui, querida. O Guilherme, o Marquinhos, namorado dele, você lembra, né?, a Roberta, o Zé Luiz, a Martinha... Pena que a gente não pode te convidar pra subir... Sabe o que é? Estamos indo pra Angra gastar o dinheiro dos processos contra a sua ex-revista. (todos gargalham) Eu não gostava de você por causa do que você fez com o Gui, mas depois disso tudo, estou amando. Quando quiser que a gente invente outras historinhas, é só pedir, viu? Pelo menos talento a gente tem, né? Beijinho.
CENA 30. EXT. CALÇADÃO DE IPANEMA EM FRENTE AO APARTAMENTO DE ATÍLIO. DIA
EDUARDA olha para a varanda do apartamento de Atílio e vê o grupo se servindo de champanhe e brindando.
FIM