sexta-feira, abril 10, 2009

Arte-cinema

Roteiro de dois minutos baseado no quadro Lago Annecy, de Cezanne.


“VOLTA” (2005)


EXT-ESTRADA DE TERRA-DIA
MOÇA com uma mochila nas costas, anda rapidamente numa estrada, bufando, cansada. A moça tem uns 30 e poucos anos, mas parece envelhecida antes do tempo, com o rosto bastante queimado e enrugado e as costas arqueadas. Suas feições estão severas. Suas roupas, que um dia foram boas, estão rasgadas e empoeiradas. A estrada é no alto do morro, faz uma curva e segue em direção a uma casa grande e antiga que fica no vale. Do lado oposto à casa há um grande lago azul. Ao longe, a moça começa a ver a movimentação e a ouvir os barulhos da casa para onde se dirige. Um casal passeia num barco no lago. Algumas crianças brincam e RIEM no gramado da casa, que é rodeado de flores, um rádio TOCA música, uma mulher CONVERSA com alguém. O rosto da moça vai se desanuviando, ela começa a andar mais rápido. Ela vê uma senhora pendurando roupas coloridas no varal.

MOÇA
(murmurando)
Rosa...

A moça olha para o pasto e vê uma adolescente galopando num cavalo, indo em direção à casa. A moça segue a garota com os olhos e coloca a mão na boca. Quase escondendo um sorriso, balança a cabeça.

MOÇA
Maria!... Virou mulher!

A moça está quase correndo agora. Ela tem um sorriso nos lábios e seu corpo está bem menos arqueado. Então, ela ouve uma voz de homem e pára subitamente. A moça chega perto da cerca que divide a estrada e o pasto e olha em direção à casa. Ela vê um homem de uns 55 anos, vestido de preto, no quintal, RALHANDO com Maria. Não é possível entender o que o homem diz, mas o tom é ríspido. A adolescente desce do cavalo e entra na casa de cabeça baixa.
A moça abaixa a cabeça. Uma gota molha o chão entre seus tênis rasgados e empoeirados. Ela coloca a mochila no chão, pega uma garrafa d'água de um dos lados da mochila, abre, bebe, joga água no rosto. Fica um tempo com a cabeça baixa, os pingos molhando o chão.
Então, a moça levanta a cabeça devagar e examina a casa de longe novamente.

MOÇA
Me perdoa, Maria.

A moça coloca a mochila nas costas e volta pela estrada na direção oposta à casa. Atrás dela, agora o quintal está vazio. Não há ninguém no lago. Não há roupas no varal, nem flores em torno do gramado. O mato está alto, a pintura da casa descascada. A impressão é de abandono.

FIM

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